ATIVIDADES ARTÍSTICAS NA NR-1
ATIVIDADES ARTÍSTICAS NA NR-1
As mudanças relacionadas à NR-1 – Norma Regulamentadora nº 1
ampliaram a atenção das empresas para a identificação e o gerenciamento dos
riscos presentes no ambiente de trabalho, incluindo os fatores de risco
psicossociais relacionados ao trabalho.
Questões como sobrecarga, pressão excessiva, conflitos
interpessoais, falta de clareza sobre responsabilidades, dificuldades de
comunicação, assédio, baixa autonomia e problemas na organização do trabalho
podem afetar o bem-estar dos trabalhadores e precisam ser consideradas pelas
organizações dentro de uma abordagem estruturada de prevenção.
Mas existe um desafio importante: nem sempre essas questões
aparecem com facilidade em um questionário ou em uma conversa formal.
É justamente nesse ponto que atividades artísticas podem
contribuir.
A arte como instrumento facilitador de expressão
Desenhar, pintar, trabalhar com modelagem, produzir uma peça
artesanal, criar uma colagem ou participar de uma atividade artística coletiva
pode favorecer um ambiente mais espontâneo de interação.
Durante uma atividade criativa, as pessoas podem se sentir
mais à vontade para conversar sobre situações do cotidiano profissional,
dificuldades de relacionamento, pressões, expectativas e percepções sobre o
ambiente de trabalho.
A proposta não é interpretar psicologicamente a obra
produzida pelo trabalhador.
Uma pintura, por exemplo, não deve ser utilizada
isoladamente para concluir que determinada pessoa está ansiosa, insatisfeita ou
sofrendo algum transtorno.
O valor da atividade está principalmente naquilo que ela
pode facilitar: diálogo, reflexão, participação e escuta.
Como isso pode funcionar na prática?
Imagine uma oficina corporativa na qual os participantes
recebam materiais artísticos e sejam convidados a representar uma questão como:
Como é trabalhar nesta equipe hoje?
Depois da produção, o facilitador pode abrir espaço para que
cada participante, voluntariamente, explique sua própria representação.
A partir das falas, podem surgir temas importantes:
·
“Tenho dificuldade de saber exatamente o que
esperam de mim.”
·
“Tudo aqui é urgente.”
·
“Tenho receio de falar quando discordo.”
·
“A equipe se ajuda, mas estamos todos
sobrecarregados.”
·
“Recebo demandas de várias pessoas ao mesmo
tempo.”
·
“O problema não é o trabalho, mas a forma como
as tarefas são distribuídas.”
Nesse caso, o elemento relevante não é a interpretação
estética do desenho ou da pintura. São os relatos, percepções e situações de
trabalho que aparecem durante a atividade.
Que questões psicossociais podem ser exploradas?
As oficinas podem ser planejadas para estimular reflexões
sobre diferentes aspectos da organização do trabalho, como:
- carga
e ritmo de trabalho;
- pressão
por resultados;
- comunicação
entre equipes e lideranças;
- conflitos
interpessoais;
- clareza
de papéis e responsabilidades;
- autonomia;
- reconhecimento
profissional;
- apoio
da liderança e dos colegas;
- participação
nas decisões;
- mudanças
organizacionais;
- situações
de constrangimento, violência ou assédio;
- equilíbrio
entre exigências, recursos disponíveis e capacidade de execução do
trabalho.
A atividade artística funciona, portanto, como porta de
entrada para a conversa, e não como substituta dos métodos técnicos utilizados
na identificação e avaliação dos riscos.
Da oficina para informações úteis à empresa
Para que a metodologia tenha valor dentro de um programa
corporativo, é importante ir além de simplesmente oferecer uma atividade de
pintura ou artesanato.
A oficina precisa ter objetivo, metodologia, condução e
registro adequados.
Por exemplo, os participantes podem trabalhar
individualmente ou em pequenos grupos e, posteriormente, discutir determinadas
perguntas estruturadas:
·
O que mais dificulta seu trabalho atualmente?
·
O que gera maior pressão na rotina?
·
O que poderia melhorar na relação entre equipe e
liderança?
·
Que situações poderiam ser modificadas para
tornar o trabalho mais saudável e eficiente?
As respostas podem ser agrupadas por temas, preservando a
confidencialidade dos participantes.
Assim, em vez de informar que “um determinado funcionário
relatou excesso de cobrança”, um relatório consolidado poderia registrar que o
tema identificado foi pressão e ritmo de trabalho, com as seguintes situações
mencionadas pelos participantes: demandas simultâneas, mudanças frequentes de
prioridade, prazos reduzidos e dificuldade para organizar as entregas.
Essas informações são mais úteis para uma análise
organizacional.
Arte não substitui avaliação técnica
Esse é um ponto fundamental.
Atividades artísticas não substituem o processo formal de
identificação, avaliação e gerenciamento dos riscos ocupacionais, nem devem ser
apresentadas como método clínico ou diagnóstico psicológico.
Elas podem integrar uma metodologia mais ampla, juntamente
com instrumentos como questionários, entrevistas, grupos focais, observação das
atividades, análise de indicadores organizacionais e levantamento das condições
e da organização do trabalho.
A arte entra como estratégia facilitadora de participação e
expressão.
Uma abordagem especialmente interessante para empresas
Muitas ações corporativas sobre saúde mental acabam seguindo
um formato exclusivamente expositivo: palestra, apresentação de slides e
orientações gerais.
As atividades artísticas permitem uma abordagem diferente e
especial. O trabalhador deixa de ser apenas espectador e passa a participar
ativamente da experiência.
Uma oficina pode combinar, por exemplo:
sensibilização → atividade artística → reflexão →
discussão orientada → identificação de temas recorrentes → consolidação das
informações → recomendações preventivas.
Essa sequência transforma a atividade criativa em uma
ferramenta de apoio ao trabalho de prevenção.
Não é necessário limitar as atividades a desenhos ou
dinâmicas tradicionais.
Pintura, modelagem, colagem e outros trabalhos manuais podem
ser utilizados como experiências de expressão e interação.
Uma empresa pode realizar, por exemplo, uma oficina de
pintura acompanhada de uma dinâmica estruturada sobre “O ambiente de trabalho
que temos e o ambiente de trabalho que queremos construir”.
Enquanto os participantes desenvolvem a atividade, o
facilitador conduz perguntas e reflexões sobre cooperação, comunicação,
pressão, reconhecimento, respeito, liderança e organização do trabalho.
Ao final, além da experiência artística, a organização pode
obter informações qualitativas que ajudem a compreender aspectos que merecem
investigação mais aprofundada.
O cuidado com a confidencialidade
Para que as pessoas realmente participem, precisam saber
como as informações serão tratadas.
A empresa deve estabelecer previamente critérios de
confidencialidade, tratamento das informações e apresentação dos resultados.
O objetivo não deve ser identificar “quem reclamou de quem”.
O foco precisa permanecer nas condições e na organização do
trabalho e nas possibilidades de prevenção.
Quando os trabalhadores percebem que o espaço é seguro e que
o propósito é compreender situações de trabalho, e não avaliar individualmente
quem participou, a qualidade da discussão tende a ser muito maior.
Da escuta à prevenção
O maior benefício dessa abordagem acontece quando a empresa
transforma aquilo que ouviu em ações concretas.
Se uma oficina revelar repetidamente dificuldades
relacionadas à comunicação da liderança, por exemplo, a solução não é
simplesmente oferecer outra oficina de arte. Pode ser necessário revisar
processos de comunicação, capacitar gestores, estabelecer canais de diálogo ou
modificar determinadas práticas de gestão.
Se surgirem relatos recorrentes de sobrecarga, será
necessário investigar carga de trabalho, dimensionamento da equipe,
prioridades, jornadas, distribuição de tarefas e recursos disponíveis.
A atividade artística ajuda a iniciar a conversa. O
gerenciamento de riscos precisa atuar sobre as causas relacionadas ao trabalho.
Arte, trabalho e prevenção podem caminhar juntos
Utilizar atividades artísticas no ambiente corporativo não
significa transformar uma exigência de segurança e saúde no trabalho em uma
atividade recreativa.
Quando existe metodologia, planejamento e condução adequada,
a arte pode funcionar como uma poderosa ferramenta de sensibilização,
participação, reflexão e escuta organizacional.
Ela pode ajudar empresas a enxergar aspectos do cotidiano de
trabalho que nem sempre aparecem espontaneamente em reuniões ou formulários.
Mais do que perguntar apenas “como você está?”, a proposta é
criar condições para compreender:
“O que existe no trabalho que está contribuindo para que as
pessoas se sintam assim e o que a organização pode fazer para melhorar?”
É justamente nessa passagem da expressão para a compreensão
e da compreensão para a prevenção que as atividades artísticas podem encontrar
seu espaço dentro de uma estratégia responsável de gestão dos fatores de risco
psicossociais relacionados ao trabalho.
ICN Assessoria
A ICN Assessoria pode integrar atividades artísticas
a programas corporativos de desenvolvimento humano, sensibilização e apoio à
identificação de questões relacionadas à organização do trabalho.
A proposta une RH, escuta organizacional, treinamento e
experiências artísticas, criando ações participativas que podem complementar
estratégias empresariais voltadas à prevenção dos fatores de risco
psicossociais e à melhoria das relações de trabalho.
